Abordagem de Ensino Baseada no Jogo

quarta-feira, 20 de abril de 2016

OS AMANTES DO FUTEBOL AGRADECEM

No último final de semana tive uma grata surpresa. Acompanhei o jogo entre, Grêmio Osasco Audax versus São Paulo Futebol Clube do sofá da minha sala. Confesso, não assistia uma partida inteira de uma equipe nacional havia algum tempo.
 
O que me chamou muito a atenção foram, os conceitos de futebol implementados e bem executados por essa equipe de futebol. Dominou a equipe do São Paulo Futebol Clube na maior parte do tempo de jogo. Mostrando, ao contrário do que o treinador do nosso selecionado nacional afirmou dias atrás para um grande veículo de comunicação, futebol é coletivo! O talento individual não é pré-requisito para formar um equipe vencedora. Sou da opinião que, o talento nasce da coletividade. Graças ao Fernando Diniz e a sua comissão técnica, isso está sendo mostrado.
 
Para quem não sabe, o auxiliar técnico da equipe do Grêmio Osasco Audax é o professor Eduardo Barros, aquele mesmo que, com muita gentileza veio à Porto União - SC no ano de 2015 para ministrar uma palestra na Universidade do Contestado - UnC Campus Porto União, onde eu leciono. Eduardo Barros, um jovem profissional que vem a cada ano, demonstrando que o estudo do futebol vale a pena, que os paradigmas estão aí para serem superados, que a ideia, a boa ideia sobre futebol deve ser pensada e colocada em prática. 
 
Enfim, sábado às 18h30 teremos mais um capítulo dessa odisseia do futebol que é o Grêmio Osasco Audax. 
 
Destarte, parafraseando Jorge Maciel "Não deixes matar o bom futebol e quem o joga"! Pois, os amantes do futebol agradecem.  

Obrigado Grêmio Osasco Audax, por contratar pessoas que pensam o futebol com boas ideias.
  
 
 

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

CAUSALIDADE E O BINÔMIO DESEMPENHO/RECUPERAÇÃO NO FUTEBOL


Qual é a quantidade do esforço para as cadeias musculares das pernas durante um treinamento na caixa de areia? Qual a qualidade de um trabalho feito na caixa de areia? Após uma atividade como  está, qual a atividade que posso desenvolver para os jogadores sem agravar a fadiga?

No futebol e em qualquer outra atividade física desportiva, treinamos para melhorar a forma de adaptação. E, segundo a teoria e metodologia do treinamento desportivo, temos diferentes tipos de adaptação:
  1. Fenômenos de adaptação morfológicos;
  2. Adaptações biopositivas e bionegativas;
  3. Sistemas de adaptação rápida e lenta;
  4. Adaptações específicas e não específicas.
Neste caso específico, vamos nos ater no item 2, adaptações biopositivas e bionegativas. Segundo Weineck,  2005, p. 14:
"... se os estímulos forem apresentados qualitativa e quantitativamente de forma - observando-se a capacidade de receber carga de cada sistema biológico -, resulta uma melhora da capacidade de desempenho, pela formação de novas estruturas de suporte (adaptação biopositiva), mais propícias a um bom desempenho. Um excesso de estímulos, por outro lado, leva a uma adaptação bionegativa - também chamada de má adaptação - e apresenta uma exigência exagerada do sistema, com momento de prejuízo."
Se não soubermos quantificar a dosagem do esforço que uma atividade terá sobre a musculatura exigida, poderemos causar uma adaptação bionegativa no jogador se, não dermos o tempo de descanso necessário para essa musculatura.


Na figura acima podemos observar isso no sistema muscular (a) no sistema ligamentar e de sustentação (b) e após uma recuperação incompleta (c). Se isso não for respeitado, muito provavelmente os jogadores estarão trabalhando sempre em um processo aquém do que seriam capazes. Destarte, derrotas começam  a surgir e o que se faz, aumentam as demandas físicas de trabalho.

Se estamos tratando do tema causalidade e o binômio desempenho/recuperação, temos que comentar sobre o tempo, correto? Segundo Prigogine (2002, p. 21) "o reaparecimento do paradoxo tempo deve-se essencialmente a dois tipos de descobertas. O primeiro consiste na descoberta das estruturas de não equilíbrio, também chamadas de 'dissipativas'. (...)". A estrutura dissipativa só existe quando  o  sistema dissipa energia e permanece em interação com o mundo exterior, é isso que ocorre quando se pratica futebol. O sistema busca equilíbrio e as atividades que propomos causam desequilíbrios ao sistema. Assim surge, outro fenômeno, o da auto-organização. De acordo com Morin (2013, p. 282-283) o fenômeno da auto-organização refere-se à aptidão de um sistema para criar novas estruturas e estabelecer um nível novo de ordem e organização, após sofrer perturbações aleatórias, de maneira que quanto mais complexos forem os comportamentos do sistema, mais ele manifestará capacidade para se adaptar em relação ao entorno.

Trabalhar o entorno, não é mudar de terreno, mas, ter a percepção de quê, a movimentação dos jogadores da sua equipe e da equipe contrária como condicionantes da atuação individual do futebolista, pois, os princípios dinâmicos da tomada de decisão e de como esta surge da interação entre neurônios interconectados, se baseiam em modelos em que a decisão se associa a uma transição entre atratores, ou estados estáveis, da rede. Esta transição entre estados é induzida por "inputs" seletivos associados a um estímulo, que modifica a paisagem dos atratores do sistema, favorecendo a transição entre o atrator neutro e um atrator seletivo, associado a uma escolha categórica (MARTI ORTEGA apud POL, 2013, p. 25). E, esse processo desgasta mais do que apenas o aspecto físico. 

Doravante, Frade (apud TAMARIT, 2013, p. 131) nos alerta para o estado de falência circunstancial do funcionamento de qualquer átomo ou de qualquer órgão é um estado de parabiose. Este é um processo que relata a união de elementos vivos. Neste caso, representa os estímulos qualitativos do treinamento e com o  propósito de articulação que este fenômeno desencadeia, após a desestruturação gerada, faz emergir uma determinada engendração conforme o estímulo que a motivou. Se trata de um processo de auto-organização que concebe o organismo e suas partes constituintes como estruturas dissipativas susceptíveis para aspirarem níveis de complexidade crescentes. Em si, não se respeitando isso, ocorrerá a "paranecrose" (FRADE apud TAMARIT, 2013, p. 131) que é o fenômeno análogo do descrito na parabiose, pois seus efeitos, pela diferença qualitativa há nível de estímulo, pela não devida contemplação do tempo de recuperação, motiva a morte dos elementos vivos, e sua consequente perda de complexidade por parte do sistema.

  

Em suma, para entendermos o processo de treinamento, dentro da causalidade binômio desempenho/recuperação não devemos procurar os "picos de forma", mas, níveis de desempenho elevados, ou seja, treinabilidade que permitam que a equipe mantenha um nível de adaptabilidade e funcionalidade e de interação eficaz e eficiente, que perdure durante todo o processo de tempo da competição, e/ou melhor, de jogo a jogo sem causar a "paranecrose".

Referências

MORIN, Edgar. Ciência com consciência. 15 ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2013.

PRIGOGINE, Ilya. As leis do caos. São Paulo: Editora UNESP, 2002.

POL, Rafel. La Preparación Física en el fútbol. El processo de entrenamiento desde las ciencias de la complejidad. MC Sports, 2013.

TAMARIT, Xavier. Periodización Táctica VS Periodización Táctica: Vítor Frade aclara. MBF, 2013.

WEINECK, Jürgen. Biologia do Esporte. 7 ed. Barueri - SP: Manole, 2005.




 


sábado, 26 de dezembro de 2015

CAOS, ACASOS e CAUSALIDADES NA PREPARAÇÃO FÍSICA

Como a preparação física vem sendo encarada no futebol? Muito se tem falado sobre mudanças no futebol, baseadas na abordagem sistêmica, teoria do caos, entre outras. Entretanto, não temos visto muitos profissionais defendendo e aplicando essas ideias na área da preparação física. 

Dentro de alguns dias, teremos início no futebol brasileiro a tão "temida" pré-temporada. É correto afirmar que a pré-temporada serve para "carregar as baterias" para o  restante da temporada? Outra questão, o que é o estado de forma física? É a capacidade de correr mais e mais rápido? É a capacidade de saltar mais alto?

Me parece que, estamos muito longe de entender a verdadeira complexidade da aplicação de estímulos que melhorem as interações futebolista-contexto, e mais nos processos de interação tão complexos como os que se produzem no futebol.

Uma teoria que para mim pode ser utilizada para aproximar a preparação física dentro da abordagem sistêmica é a da Teoria das Estruturas Dissipativas, elaborada pelo físico-químico Ilya Prigogine. Estruturas Dissipativas são sistemas comumente encontrados na natureza, que se caracterizam por estarem abertos a fluxo de matéria e energia, sendo assim, apresentam uma entrada (input) e uma saída (output). Por estarem afastados do equilíbrio entende-se que são sistemas fluentes, dinâmicos.  Uma estrutura dissipativa se constitui em dois momentos:

  • O primeiro momento é linear e corresponde à segunda lei da termodinâmica, onde os escoamentos (desgaste físicos) são mínimos; 
  • O segundo é não-linear; o processo se torna irreversível e só poderá ser descrito pela termodinâmica dos sistemas irreversíveis (situações que só o  jogo produz).
O primeiro momento, podemos caracterizá-lo como as atividades tradicionais da preparação física, atividades que se preocupam apenas com as capacidades física (resistência, força, velocidade) sem levar em conta as tomadas de decisões que o jogo de futebol exige (onde pela cansaço emocional  o desgaste será sempre maior do quê, apenas o desgaste físico). 
Já o segundo  momento, seria constituído pelas situações próximas do jogo de futebol (com tomadas de decisões) e ligadas a ideia de jogo da equipe (adaptações que os jogadores necessitam realizar para desenvolver o  jogo).

Em se tratando da preparação física, ainda o problema do fornecimento de energia para a atividade física (prática do futebol) em fisiologia é tratado do ponto de vista da cibernética, com uma entrada (input) que seriam as cargas de trabalho, e na saída (output), são observados: frequência cardíaca; consumo de oxigênio; eliminação de gás carbônico; modificação da concentração de ácido lático no sangue. Ficando fora desse contexto na maioria das vezes, as propriedades morfológicas ou leis biológicas do desenvolvimento dos processos da adaptação. 
    
Destarte, voltando ao questionamento inicial sobre a capacidade da pré-temporada, ao analisar a duração das adaptações produzidas pelo treinamento observa-se que está crença não tem base fisiológica, já que as adaptações produzidas pelo treinamento não podem manter-se por um tempo tão prolongado.
A pré-temporada deviria ser tratada como um processo de readaptação do jogador há atividade competitiva e um processo de coadaptação treinador/jogadores. Este processo de coadaptação se refere a ideia de que, não só os jogadores se adaptam as pré-concepções futebolísticas de determinado treinador e as concepções de jogo que tenha previsto aplicar, mas que o treinador deveria observar e analisar os comportamentos mais ou menos instaurados nos jogadores para poder atuar conforme as necessidades específicas daquele grupo de jogadores (POL, 2013).   
   

Em suma, trabalhos de prevenção e de readaptação, pois em um plantel de jogadores de uma equipe de futebol, sempre teremos questões muito complexas como: idades diferentes, histórico de lesões, tempo de inatividade entre as temporadas, entre outras. Isto tudo tem que ser levado em conta no início da pré-temporada.

Feliz 2016 a todos!

Referência   

POL, Rafel. La Preparación Física en el fútbol: El processo de entrenamiento desde las ciencias de la complejidad. MC Sports: 2013.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

MODELO DE JOGO/IDIOMA DE FUTEBOL




 

Chegamos ao final de mais um ano e uma notícia me chamou atenção neste mês de dezembro, o treinador Muricy Ramalho assumi o Clube de Regatas do Flamengo e justifica a escolha, por poder unificar as categorias de formação com a equipe principal.

Isso que o treinador pretende executar no  clube carioca é o  que vem sendo feito no FC Barcelona a mais de 35 anos. Local onde o treinador recentemente realizou um estágio. 

Esse processo deve ser baseado no modelo sistêmico e esse modelo é uma pirâmide invertida. Primeiro poucos conteúdos (estímulos físicos e táticos) já que o indivíduo está potencialmente menos capacitado, e a partir do que vai conseguindo elaborar processos cada vez de mais alto nível de interação vai aumentando a sua capacidade no processo de aprendizagem desse Modelo de Jogo/Idioma de futebol  do clube do qual faz parte.
Desta forma, conforme os futebolistas começam no processo de formação recebem estímulos táticos (Princípios e Sub-Princípios) referentes ao Modelo de Jogo do Clube e também estímulos físicos (Períodos Sensíveis) correspondentes a sua categoria e faixa etária (maturação) para que todos falem o mesmo idioma de futebol. Este processo vai avançando em multi-níveis, que representam níveis estáveis que asseguram a consistência das interações entre os conteúdos que cada categoria deve se apropriar para almejar a excelência. Partindo da inexperiência à experiência.

Essa unificação deve ser bem compreendida pelos atores do processo (treinadores de cada categoria) pois, serão eles os responsáveis por aplicarem os conceitos de jogo e realizarem as devidas modificações para serem coerentes nas avaliações do processo, sendo mediadores desse nível de jogo potencial  de cada um, conforme Vygotsky propos com a sua teoria da Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP). 

Destarte, outra situação que não pode passar despercebida é a dependência sensível das condições iniciais (Efeito Borboleta), pois, os sistemas não-lineares não podem, em geral, ser solucionáveis e não podem ser somados uns aos outros. Isso posto, não se consegue mensurar quais os resultados das infinitas interações, mas percebe-se os padrões que se estabelecem. E, o resultado final será muito sensível as condições iniciais, pois, qualquer diferença por menor que seja, em valores de variáveis de suas equações podem produzir evoluções diferentes à medida que o processo se desenvolve.    

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

O IMPORTANTE É O SER HUMANO QUE PRATICA O FUTEBOL


O Treinamento Estruturado tem como cerne as teoria que tratam os mais recentes conhecimentos sobre o que é o ser humano e as funções dos seres vivos, teorias dos sistemas e as teorias ecológicas. 

Destarte, sua finalidade é a auto-modelação do futebolista, quer dizer, centrar-se no próprio indivíduo, que tem que treinar seus próprios recursos e otimizar as potencialidades que possuem.

Por exemplo, observamos que muitos de nós (eu me incluo nisto) pensamos que o modelo de jogo e o modelo de treino que desenvolve o treinador é uma justificativa para dizer que "o treinador tem um bom modelo de jogo, uma determinada forma de treinar ...", e na verdade isto não é bem assim, estamos nos preocupando muito em que o treinador evolua (eles estão evoluindo, procurando se aperfeiçoar), mas a questão central não é essa, quem tem que evoluir é o jogador, não o treinador (SEIRUL-LO, 2002).

O treinador graças ao seu conhecimento de causa ajuda o jogador a evoluir. Através desse intercâmbio que acontece no treinamento, que serve para fazer progredir tanto o treinador como o jogador, mais principalmente o jogador, desta forma o treinador deve buscar: a constante aquisição de novos conhecimentos do jogador sobre o jogo, o treinamento e sobre ele mesmo. O treinador tem isso bem claro na sua ideia de jogo, mas não pode realizar. Por isso, o jogador é quem tem que conhecê-lo para realiza-lo (SEIRUL-LO, 2002). 

Desta forma, os exercícios da teoria convencional não nos servem, pois se desenvolvem de forma analítica e sequencial no progresso de treinamento. O que temos que fazer é construir exercícios (jogos fractais) novos, diferentes que proporcionem essa interação dinâmica e sejam consistentes, já que os exercícios analíticos fundamentados em outras teorias não conseguem.

Por isso, o importante é o  ser humano que pratica o futebol, porque é partir dele que construímos esses sistemas, a partir de uma determinada situação de jogo, necessita realizar uma tarefa motriz em um determinado lugar do espaço e durante um determinado tempo. E nesta atividade motriz espaço-temporal se relaciona ou estabelece interações com objetos (bola), com os companheiros e os oponentes.  

                                  Fig. 1: Treinamento Estruturado
                                        Fonte: Seirul-lo, 2002. 

Destarte, o ser humano é assim interpretado, pois, uma das propriedades sobressalentes dos seres vivos é construir estruturas multiníveis de sistemas dentro de sistemas. 

Por fim, o ser humano sendo  entendido desse modo, podemos construir novos elementos e situações de treinamento que produzam interações entre as estruturas multiníveis dos distintos sistemas que constituem o ser humano. O Treinamento Estruturado desencadeia portanto uma necessidade de treinamento não hierarquizado, só priorizado, outro conceito que devemos levar em conta. O treinamento priorizado supõe que, uma determinada situação de treinamento têm que acontecer com todos os elementos da estruturas implicadas (Estrutura Condicional; Estrutura Coordenativa; Estrutura Sócio-Afetiva; Estrutura Emotivo-Volitiva; Estrutura Criativo-Expressiva; Estrutura Mental-Cognitiva) e priorizar um elemento que permita atenção especial (uma  prioridade) dentro daquelas determinadas situações. Isto que provoca a concepção do ser humano ser o mais importante nesta metodologia (SEIRUL-LO, 2002).   

Referência

SEIRUL-LO, F. V. La preparación física en deportes de equipo: Entrenamiento Estructurado. Valência Junio de 2002.  Jornada sobre Rendimiento Deportivo

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

TREINAMENTO ESTRUTURADO O TREINAMENTO PARA O SÉCULO XXI


Estamos chegando ao final de mais um ano de estudos e situações práticas no futebol. Não é novidade que, os esportes coletivos em muitos casos, se apoiam e utilizam metodologias de trabalho oriundas dos esportes individuais, atletismo por exemplo. Apesar de ser muito apregoado por inúmeros profissionais do futebol que isso é um equivoco. Mas, quando observamos trabalhos de aquecimentos antes das partidas e treinamentos de muitas equipes pelo país a fora não consigo dissociar este método do individual para o coletivo.

Segundo Maturana e Varela (1995), quando nos referimos a aprendizagem "não nascemos nem amando e nem odiando ninguém em particular." E isso, pode ser transferido para as metodologias de treinamento em futebol.

Hipoteticamente vamos nos ater aos trabalhos destinados para desenvolver velocidade. Como se treina a velocidade no atletismo? Saída baixa, alta, de costas, etc; sempre com um estímulo sonoro (palma, silvo) percorrendo determinada distância; logo realizando a técnica específica da prova de 100 metros livre.  E como se treina velocidade no futebol? Realmente o  que estamos treinando são elementos coordenativos específicos do atletismo. Destarte, saída parado após um estímulo sonoro (palma e/ou silvo), para percorrer determinada distância em linha reta ou com mudanças de direção. Mas, quando transferimos essa situação para a realidade do jogo, em nenhum momento um jogador que sai em contra-ataque no futebol espera que seu treinador dê uma palma ou lhe diga "aos seus lugares, pronto ... já" para iniciar o contra-ataque. Ao contrário, o jogador deve, analisar a situação, perceber o que acontece, onde está bola, os adversários, relacionar com o que o treinador propôs para aquela situação nos treinamento, quer dizer, levar em conta um grande número de variáveis.

Por pensar dessa forma, o treinador Francisco Seirul-lo Vargas (preparador físico do FC Barcelona) juntamente com um grupo de professores do INEF de Barcelona, desenvolveu e aplicou na prática o Treinamento Estruturado. O início ocorreu no Handebol do clube catalão, posteriormente foi implantado nas canteras do FC Barcelona para posteriormente chegar a equipe principal. O método consiste em pequenos ciclos de treinamento, de três a cinco dias, dedicados ao trabalho de alguma capacidade física: força de resistência, força elástica, força explosiva, dependendo da necessidade do jogador e do momento da temporada. Sempre utilizando a bola, o treinamento simula as condições técnico-táticas da próxima partida. Sempre em consonância com os princípios de jogo do treinador.

Temos que lembrar o seguinte, a aprendizagem não acontece pela repetição das mesmas situações mas por sequências de situações que provoquem o desenvolvimento dos processos de interação entre os sistemas. E se,  o jogo é tratado como um sistema dinâmico aberto, precisamos trata-lo como tal.

 
Figura 1. Representação esquemática das condicionantes do processo de tomada de decisão do esportista devido a sua interação com o entorno.
                                        
                                                            Fonte: Adaptado de Araújo, 2005. 

Destarte, o Treinamento Estruturado nos mostra que, ao contrário do que muitos pensam, o treinamento não pode ser controlado, ele não evolui desde uma comparação com modelos externos ao sujeito (jogador), mas que temos que evoluir no próprio nível de uma auto-organização (autopoiese), temos que ver como cada um vai se construindo, através de como o jogador é  capaz de interpretar suas atuações em qualquer episódio da prática desportiva do futebol e desde qualquer perspectiva do esporte que pratica (SEIRUL-LO, 2002). 

Se isto for compreendido, o problema do desnível maturacional nas categorias de base pode ser melhor equacionado.

Referências

ARAÚJO, D. O Contexto da decisão, a acção táctica no desporto. Editorial visão e contextos, 2005.

MATURANA, H. e VARELA, F. G. A árvore do conhecimento. As bases biológicas do conhecimento humano. Editorial Psy II: Campinas,  SP, 1995. 

SEIRUL-LO, F. V. La preparación física en deportes de equipo: Entrenamiento Estructurado. Valência Junio de 2002.  Jornada sobre Rendimiento Deportivo.

 

domingo, 22 de novembro de 2015

FORMAÇÃO E O MODELO DE JOGO DO CLUBE


Hoje no cenário futebolístico nacional percebo que uma palavra está na moda, Modelo de Jogo. Mas, o que vem a ser isto?
 "O Modelo de Jogo é o que acontece como padronização durante o jogar regular de uma equipe e o identifica, sendo sempre possível uma evolução qualitativa."
                                                                                       Vítor Frade, 2013

Isto significa dizer que, dentro de um planejamento adotado os treinamentos serão montados de tal forma que todos os jogadores da equipe irão se comportar dentro de uma mesma ótica, ou seja, com o intuito de cumprir um objetivo comum nos diferentes momentos do jogo (Organização Ofensiva - Transição Defensiva - Organização Defensiva - Transição Ofensiva). Desta forma, o Modelo  de Jogo nada mais é do que a definição de quais são esses objetivos, ou melhor, qual é a conduta esperada pela equipe nos diferentes momentos de modo que, todos os treinamentos estarão voltados para o alcance desses objetivos (TAMARIT, 2007).

Fica claro que o Modelo de Jogo não é algo natural, mas, que é algo que se constrói. Por ser algo que se constrói, eu penso que cada clube deveria construir o seu Modelo de Jogo para ser colocado em prática nas suas categorias de formação e desta forma conseguir chegar até a equipe principal. Para que no  momento oportuno os jogadores oriundos das categorias de formação possam jogar na equipe principal sem precisar se acostumar com a Ideia de Jogo do Treinador. O ideal seria que, o clube conhecesse a ideia de jogo do treinador para poder contrata-lo.

Para o clube criar o seu Modelo de Jogo é preciso definir: Como Atacar? Ser dominador da bola e dominador do espaço; Como Defender? Com as linhas muito próximas; Como Transitar entre esses dois momentos? Pressão sobre o homem da bola em todas as partes do campo, domínio e passe, resistência para correr o jogo todo. Com isso, as categorias de formação já começam a ter uma identidade com o Modelo de Jogo que o clube pretende implantar e assim, facilita a promoção dos jogadores pelas categorias e também a incorporação de novos integrantes para as mesmas. E essa padronização vai acontecendo em níveis: Principiante (13 à 14 anos); Intermediário (15 à 16 anos) e Avançado (17 à 20 anos).

Destarte, para que isso seja concretizado o clube deve ter uma metodologia de trabalho unificada e baseada na abordagem sistêmica para que os jogadores cresçam e se desenvolvam com autonomia e liberdade, pois quem joga e exprime a Ideia de Jogo do treinador são os jogadores. Pois o Modelo de Jogo é tudo, é a Ideia de Jogo do treinador mais o contexto que o circunda.

Referência

TAMARIT, Xavier.  ¿Qué es la “Periodización Táctica"? Vivenciar el “juego” para condicionar el juego. Espanha: MCSports, 2007.