Abordagem de Ensino Baseada no Jogo

sábado, 26 de dezembro de 2015

CAOS, ACASOS e CAUSALIDADES NA PREPARAÇÃO FÍSICA

Como a preparação física vem sendo encarada no futebol? Muito se tem falado sobre mudanças no futebol, baseadas na abordagem sistêmica, teoria do caos, entre outras. Entretanto, não temos visto muitos profissionais defendendo e aplicando essas ideias na área da preparação física. 

Dentro de alguns dias, teremos início no futebol brasileiro a tão "temida" pré-temporada. É correto afirmar que a pré-temporada serve para "carregar as baterias" para o  restante da temporada? Outra questão, o que é o estado de forma física? É a capacidade de correr mais e mais rápido? É a capacidade de saltar mais alto?

Me parece que, estamos muito longe de entender a verdadeira complexidade da aplicação de estímulos que melhorem as interações futebolista-contexto, e mais nos processos de interação tão complexos como os que se produzem no futebol.

Uma teoria que para mim pode ser utilizada para aproximar a preparação física dentro da abordagem sistêmica é a da Teoria das Estruturas Dissipativas, elaborada pelo físico-químico Ilya Prigogine. Estruturas Dissipativas são sistemas comumente encontrados na natureza, que se caracterizam por estarem abertos a fluxo de matéria e energia, sendo assim, apresentam uma entrada (input) e uma saída (output). Por estarem afastados do equilíbrio entende-se que são sistemas fluentes, dinâmicos.  Uma estrutura dissipativa se constitui em dois momentos:

  • O primeiro momento é linear e corresponde à segunda lei da termodinâmica, onde os escoamentos (desgaste físicos) são mínimos; 
  • O segundo é não-linear; o processo se torna irreversível e só poderá ser descrito pela termodinâmica dos sistemas irreversíveis (situações que só o  jogo produz).
O primeiro momento, podemos caracterizá-lo como as atividades tradicionais da preparação física, atividades que se preocupam apenas com as capacidades física (resistência, força, velocidade) sem levar em conta as tomadas de decisões que o jogo de futebol exige (onde pela cansaço emocional  o desgaste será sempre maior do quê, apenas o desgaste físico). 
Já o segundo  momento, seria constituído pelas situações próximas do jogo de futebol (com tomadas de decisões) e ligadas a ideia de jogo da equipe (adaptações que os jogadores necessitam realizar para desenvolver o  jogo).

Em se tratando da preparação física, ainda o problema do fornecimento de energia para a atividade física (prática do futebol) em fisiologia é tratado do ponto de vista da cibernética, com uma entrada (input) que seriam as cargas de trabalho, e na saída (output), são observados: frequência cardíaca; consumo de oxigênio; eliminação de gás carbônico; modificação da concentração de ácido lático no sangue. Ficando fora desse contexto na maioria das vezes, as propriedades morfológicas ou leis biológicas do desenvolvimento dos processos da adaptação. 
    
Destarte, voltando ao questionamento inicial sobre a capacidade da pré-temporada, ao analisar a duração das adaptações produzidas pelo treinamento observa-se que está crença não tem base fisiológica, já que as adaptações produzidas pelo treinamento não podem manter-se por um tempo tão prolongado.
A pré-temporada deviria ser tratada como um processo de readaptação do jogador há atividade competitiva e um processo de coadaptação treinador/jogadores. Este processo de coadaptação se refere a ideia de que, não só os jogadores se adaptam as pré-concepções futebolísticas de determinado treinador e as concepções de jogo que tenha previsto aplicar, mas que o treinador deveria observar e analisar os comportamentos mais ou menos instaurados nos jogadores para poder atuar conforme as necessidades específicas daquele grupo de jogadores (POL, 2013).   
   

Em suma, trabalhos de prevenção e de readaptação, pois em um plantel de jogadores de uma equipe de futebol, sempre teremos questões muito complexas como: idades diferentes, histórico de lesões, tempo de inatividade entre as temporadas, entre outras. Isto tudo tem que ser levado em conta no início da pré-temporada.

Feliz 2016 a todos!

Referência   

POL, Rafel. La Preparación Física en el fútbol: El processo de entrenamiento desde las ciencias de la complejidad. MC Sports: 2013.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

MODELO DE JOGO/IDIOMA DE FUTEBOL




 

Chegamos ao final de mais um ano e uma notícia me chamou atenção neste mês de dezembro, o treinador Muricy Ramalho assumi o Clube de Regatas do Flamengo e justifica a escolha, por poder unificar as categorias de formação com a equipe principal.

Isso que o treinador pretende executar no  clube carioca é o  que vem sendo feito no FC Barcelona a mais de 35 anos. Local onde o treinador recentemente realizou um estágio. 

Esse processo deve ser baseado no modelo sistêmico e esse modelo é uma pirâmide invertida. Primeiro poucos conteúdos (estímulos físicos e táticos) já que o indivíduo está potencialmente menos capacitado, e a partir do que vai conseguindo elaborar processos cada vez de mais alto nível de interação vai aumentando a sua capacidade no processo de aprendizagem desse Modelo de Jogo/Idioma de futebol  do clube do qual faz parte.
Desta forma, conforme os futebolistas começam no processo de formação recebem estímulos táticos (Princípios e Sub-Princípios) referentes ao Modelo de Jogo do Clube e também estímulos físicos (Períodos Sensíveis) correspondentes a sua categoria e faixa etária (maturação) para que todos falem o mesmo idioma de futebol. Este processo vai avançando em multi-níveis, que representam níveis estáveis que asseguram a consistência das interações entre os conteúdos que cada categoria deve se apropriar para almejar a excelência. Partindo da inexperiência à experiência.

Essa unificação deve ser bem compreendida pelos atores do processo (treinadores de cada categoria) pois, serão eles os responsáveis por aplicarem os conceitos de jogo e realizarem as devidas modificações para serem coerentes nas avaliações do processo, sendo mediadores desse nível de jogo potencial  de cada um, conforme Vygotsky propos com a sua teoria da Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP). 

Destarte, outra situação que não pode passar despercebida é a dependência sensível das condições iniciais (Efeito Borboleta), pois, os sistemas não-lineares não podem, em geral, ser solucionáveis e não podem ser somados uns aos outros. Isso posto, não se consegue mensurar quais os resultados das infinitas interações, mas percebe-se os padrões que se estabelecem. E, o resultado final será muito sensível as condições iniciais, pois, qualquer diferença por menor que seja, em valores de variáveis de suas equações podem produzir evoluções diferentes à medida que o processo se desenvolve.    

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

O IMPORTANTE É O SER HUMANO QUE PRATICA O FUTEBOL


O Treinamento Estruturado tem como cerne as teoria que tratam os mais recentes conhecimentos sobre o que é o ser humano e as funções dos seres vivos, teorias dos sistemas e as teorias ecológicas. 

Destarte, sua finalidade é a auto-modelação do futebolista, quer dizer, centrar-se no próprio indivíduo, que tem que treinar seus próprios recursos e otimizar as potencialidades que possuem.

Por exemplo, observamos que muitos de nós (eu me incluo nisto) pensamos que o modelo de jogo e o modelo de treino que desenvolve o treinador é uma justificativa para dizer que "o treinador tem um bom modelo de jogo, uma determinada forma de treinar ...", e na verdade isto não é bem assim, estamos nos preocupando muito em que o treinador evolua (eles estão evoluindo, procurando se aperfeiçoar), mas a questão central não é essa, quem tem que evoluir é o jogador, não o treinador (SEIRUL-LO, 2002).

O treinador graças ao seu conhecimento de causa ajuda o jogador a evoluir. Através desse intercâmbio que acontece no treinamento, que serve para fazer progredir tanto o treinador como o jogador, mais principalmente o jogador, desta forma o treinador deve buscar: a constante aquisição de novos conhecimentos do jogador sobre o jogo, o treinamento e sobre ele mesmo. O treinador tem isso bem claro na sua ideia de jogo, mas não pode realizar. Por isso, o jogador é quem tem que conhecê-lo para realiza-lo (SEIRUL-LO, 2002). 

Desta forma, os exercícios da teoria convencional não nos servem, pois se desenvolvem de forma analítica e sequencial no progresso de treinamento. O que temos que fazer é construir exercícios (jogos fractais) novos, diferentes que proporcionem essa interação dinâmica e sejam consistentes, já que os exercícios analíticos fundamentados em outras teorias não conseguem.

Por isso, o importante é o  ser humano que pratica o futebol, porque é partir dele que construímos esses sistemas, a partir de uma determinada situação de jogo, necessita realizar uma tarefa motriz em um determinado lugar do espaço e durante um determinado tempo. E nesta atividade motriz espaço-temporal se relaciona ou estabelece interações com objetos (bola), com os companheiros e os oponentes.  

                                  Fig. 1: Treinamento Estruturado
                                        Fonte: Seirul-lo, 2002. 

Destarte, o ser humano é assim interpretado, pois, uma das propriedades sobressalentes dos seres vivos é construir estruturas multiníveis de sistemas dentro de sistemas. 

Por fim, o ser humano sendo  entendido desse modo, podemos construir novos elementos e situações de treinamento que produzam interações entre as estruturas multiníveis dos distintos sistemas que constituem o ser humano. O Treinamento Estruturado desencadeia portanto uma necessidade de treinamento não hierarquizado, só priorizado, outro conceito que devemos levar em conta. O treinamento priorizado supõe que, uma determinada situação de treinamento têm que acontecer com todos os elementos da estruturas implicadas (Estrutura Condicional; Estrutura Coordenativa; Estrutura Sócio-Afetiva; Estrutura Emotivo-Volitiva; Estrutura Criativo-Expressiva; Estrutura Mental-Cognitiva) e priorizar um elemento que permita atenção especial (uma  prioridade) dentro daquelas determinadas situações. Isto que provoca a concepção do ser humano ser o mais importante nesta metodologia (SEIRUL-LO, 2002).   

Referência

SEIRUL-LO, F. V. La preparación física en deportes de equipo: Entrenamiento Estructurado. Valência Junio de 2002.  Jornada sobre Rendimiento Deportivo